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Sabia Que...
 
 

...o pó de múmia egípcia foi utilizado como medicamento, durante séculos?

O pó de múmia começou a ser utilizado na medicina europeia entre os séculos XII e XIII, devido à interpretação errónea de textos médicos árabes. Originalmente, o termo árabe mūmiyāʾ designava um betume mineral medicinal proveniente da Pérsia, referido como Mirra da Pérsia. Contudo, os boticários passaram a associar o termo às múmias egípcias e começaram a utilizar partes de corpos mumificados pulverizados como medicamento.

O boticário português Manuel Rodrigues Coelho, autor da Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica (1735), esclarece que a “verdadeira Mumia, a que outros chamam Mirrha da Pérsia”, teria “pouca razão de lhe atribuirem as virtudes”. Aconselha, mesmo assim:


(...) que não obstante, se há de escolher por melhor Mumia, a que for resplandecente, negra, sem ossos, nem pós, que tenha bom cheiro, e que queimando-a não cheire a Pez. Serve a Mumia para resolver, e resistir à Gangrena, para as contusões, e para que se não coalhe o sangue (...) e se diz ser contra a tísica, e sufocação uterina, e para outras muitas enfermidades.

Apesar do seu ceticismo, Rodrigues Coelho incluiu, no tratamento de feridas, a múmia em pó juntamente com espermacete (sperma ceti), sangue de bode pulverizado, olhos de caranguejo, alcaçuz, canela e terebintina para “descoagularem o sangue, que se acha engromecido”.

A utilização do pó de múmia difundiu-se entre os séculos XVI e XVII sendo prescrito para o tratamento de hemorragias, feridas, contusões, dores de cabeça, epilepsia e afeções digestivas. Podia ser administrado misturado com vinho, mel ou xaropes, incorporado em pós e electuários, ou sob a forma de pomadas e unguentos.

A popularidade deste medicamento originou um lucrativo comércio de restos de corpos humanos mumificados, alimentando o saque de sepulturas no Egito.

Com o desenvolvimento da química farmacêutica, o seu uso caiu progressivamente em desuso, permanecendo como uma curiosidade bizarra entre as substâncias terapêuticas exóticas que marcaram a história da medicina e da farmácia.